RECOLHIMENTO



Recolhimento
“… e porque nesta vasta diocese não se encontrava lugar em que as mulheres prostitutas e de maus costumes, em refúgio seguro e acomodado … tentassem emendar-se ...” 
Tinha por costume antigo levantar-se antes do sol, sair do Paço Arquiepiscopal e seguir por vielas esconsas, de olho aberto às misérias e aflições do seu rebanho. Por essas horas, nas travessas da luxúria e perversão, arrastavam-se na sua desgraça as perdidas do mundo. Empurradas pelos percalços da vida, ali caíam por desamparo dos mais e por condição de nascimento. Havia muito que a intenção lhe consumia a alma: levantar uma casa de Deus para recolhimento das descaídas, em clausura e livres de ocasiões de pecado, para reforma dos vícios, aquisição de virtudes e conversão à santidade. Assim fez.

Corria o ano de 1720 quando D. Rodrigo de Moura Teles mandou construir casa e capela no Campo de Santa Ana. Tomaria o nome de Santa Maria Madalena, pecadora, acomodaria vinte celas de dormir, oficinas de labor e outras divisórias, cozinha, horta e pátio. Para governar a casa, fazer cumprir os estatutos e conduzir as almas recolhidas, o arcebispo nomearia uma Regente. A mitra do prelado sustentaria até doze do número, que se não pudessem manter, mais a Regente e a Porteira. Nas demais celas se guardariam supranumerárias, com renda ou dote para prover o seu encosto.

Fez o arcebispo estatutos, onde preceituava os deveres de oração e graças ao Senhor, de obediência e labor, de comportamento e castigo, no pio propósito de emendar os maus costumes e abrir o caminho da vida honesta, dentro ou fora da casa, como assim quisessem e merecessem as convertidas. 

Seguiu-se em cortejo pelas ruas de Braga, do Paço ao Recolhimento, inaugurou-se e deu-se notícia do refúgio para regeneração das da má vida. Foi no dia 25 de abril de 1722. Ainda hoje se chama Recolhimento de Santa Maria Madalena e São Gonçalo, conhecido como Recolhimento das Convertidas.

Durante 277 anos recolheu e abrigou mulheres e crianças desamparadas.

Texto: Mário Carvalho
Ilustrações: Patrícia Ferreira

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